Índia by Ana Tereza [cliente Teresa Perez]

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Numa certa madrugada, decidi pôr para fora o que fervilhava em minha mente insone, minhas impressões e sentimentos sobre uma jornada mais que sagrada por um país deslumbrante e seu povo de espírito eterno e indominável.

A Índia é ainda mais que tudo que eu imaginei. Muito mais! Uma viagem, uma experiência há muito sonhada. História, cultura, religiões, romance, beleza, surpresas, encantos, mistérios e acima de tudo, um banho de humanidade!

Leio sobre a Índia, seus deuses, mestres e gurus há uns trinta ano s. Já conheci e pratiquei vários tipos de ioga, e vivi grandes transformações pessoais quando “conheci” Paramahansa Yogananda e Osho, sem falar do budismo que tanto me encanta. Tatuei um Om intuitivamente em minhas costas há vinte anos, sem nem mesmo alcançar o todo de seu sentido e significado…

Índia… Um país de contrastes. Centenas de marajás, os antigos sultões (ouvimos deles o tempo todo), que foram os reis daqui e seus magníficos castelos, templos e fortes convivem lado a lado com a miséria mais impressionante que já testemunhei. Essa pobreza extrema toca nossos corações na máxima profundidade, pois mesmo tão extrema ainda assim parece uma pobreza feliz.

Um povo manso e pacífico – filhos de Gandhi – pronto para sorrir, e sorrindo de fato, o tempo todo. Às vezes vemos tantos mendigos, como em Varanasi, que chegamos a pensar que aqui isto é uma atividade, uma profissão. O ritmo das pessoas, lento e relaxado, destoa por completo do trânsito enlouquecido, frenético e sem qualquer ordem. Não se vê sinais luminosos nem guardas de trânsito, e diz o dito popular que aqui para trafegar você precisa de apenas três coisas: 1. Boa buzina, 2. Bom freio e 3. Boa sorte. O barulho é por vezes enlouquecedor, mas inacreditavelmente com o passar do tempo a gente se acostuma com aquilo e passa a ouvir menos. Na traseira dos caminhões vemos a frase “por favor, buzine”. Nas ruas e estradas, carros, bicicletas, lambretas tuc tucs, vacas, cabras, cachorros e pedestres têm o mesmo direito e se misturam num oceano caótico para nós, mas extremamente tranquilo e com sentido para eles.

Religiões distintas como o hinduísmo, jainismo, islamismo, budismo, catolicismo, siquismo e outras mais convivem lado a lado respeitosa e democraticamente como eu jamais poderia imaginar. As autoridades públicas praticamente não aparecem, deixando a impressão de um povo que governa a si mesmo. Os políticos são muito corruptos e ignoram a realidade do povo, que por sua vez também os ignora, pois está muito ocupado com suas rotinas de adoração aos seus deuses. A maioria do povo é hindu e idolatra milhares, alguns dizem que são milhões, de Deuses e Deusas, todos eles derivando da trindade Bhrama (o criador), Vishnu (o protetor, mantenedor) e Shiva (o destruidor, transformador), este último o mais venerado de todos.

Um rápido mergulho no hinduísmo nos deixa em contato com centenas de mitos e lendas, passados de geração a geração, e com uma quantidade quase sem fim de deidades e suas diversas representações. Minha cabeça quase deu um nó tentando aprender e gravar essa enxurrada de informações e nomes. Como são crédulos… “quanta inocência!”, era o que minha mente ocidental pensava o tempo todo. Também vi os famosos “homens santos” (os Hindu Holy men), os Saddhus, figuras marcantes com aspecto bastante peculiar, uns verdadeiros e outros falsos! Sim, aqui tem homens santos falsos espalhados pelas ruas e que se vestem assim para arrancar dinheiro do turista desavisado. Os verdadeiros “holy men”, babas, têm uma história extraordinária e estão pra lá da nossa compreensão, em especial aqueles que vivem isolados por completo no Himalaya, conhecidos como os Naga Holy Men.

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A vaca é de fato sagrada aqui na Índia, muito sagrada! A vaca e outros animais, pois existe um respeito e amor profundos por todo ser vivente. Mas as vacas me arrancaram risadas o tempo todo. Estão em todos os lugares, em pé e deitadas, nas ruas, nas estradas (passeando tranquilamente, solitárias ou em grupo), nos comércios e nas casas. Cheguei a ver uma vaca enorme, bem sossegada e feliz, na sala/cozinha/quarto de uma casinha minúscula. Ela estava feliz e o dono da casa também. Aquilo era perfeitamente normal…

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Por todo o país muitas pessoas numa magreza indescritível, comendo quase nada, mas se organizando para não deixar faltar alimento para as vacas (e bois), que vivem revirando enormes montanhas de lixo amontoado nas ruas, degustando alegremente plástico, papelão e o que mais encontram pela frente, mais outra questão milagrosa e sem resposta como tantas outras na Índia que conheci nos últimos dias. Aqui não se fala “vaca” quando querem se referir a esse animal. Só se diz “vaca sagrada”, a holy cow! Com o tempo eu também me vi falando assim… “Olha ali uma holy cow”… “A holy cow isso, a holy cow aquilo”… Muito engraçado. Além delas, milhares e milhares de macacos espalhados por todos os cantos, nos jardins, nas ruas, estradas e nos templos. E onde as pessoas ou turistas os alimentam são malandros, por vezes até agressivos. Mas isto não importa, faz parte de tudo, não incomoda nenhum Indiano.

Em cada cidade uma experiência única, completamente diferente uma da outra. Varanasi, a cidade sagrada, e o Ganges com tudo que acontece nele dia e noite, seus banhos, cremações de corpos e rituais sem fim foram umas das coisas mais fortes, tocantes e impressionantes que já vivenciei e que me deixaram a impressão de que eu não estava devidamente em dia com minha própria espiritualidade. O Taj Mahal, o monumento (do amor) mais magnífico e perfeito que já vi até hoje. Como foi possível tanto amor, tanta grandiosidade, uma construção assim tão equilibrada e bela?! De novo chorei de emoção… Dizem que a nossa vida se divide em antes e depois do Taj Mahal. Talvez seja mesmo.

Khajuraho e seus templos do tantra que inspiraram o Kama Sutra (tão mal interpretado no ocidente) nos mostram e ensinam o essencial da experiência humana na terra. Tudo ali tem sentido e propósito, nada foi aleatoriamente esculpido em suas pedras. Já o Rajastão, ahh o Rajastão, e as lindas Jaipur, Jhodpur e Udaipur, é um maravilha de Índia, talvez a mais bela, repleta de arte e artesanato tão deslumbrantes como acredito não haver igual no planeta. São riquíssimos, belíssimos. Dá vontade de levar um pouco de tudo na mala! Delhi, por sua vez, nos possibilita viver uma Índia moderna e sofisticada, com excelente gastronomia, mas nem tantos encantos.

A Índia é mesmo super-ultra multicolorida. Tenho às vezes a impressão que ao voltar pra casa vou passar um tempo achando o mundo cinza e silencioso. São muitas as cores e sempre fortes, pois nada aqui é tênue ou pastel quando se trata de cores, seja nos templos, castelos ou tecidos. Amarelo, vermelho, rosa (muito rosa!), verde, azul e brilho… Muito brilho! Assim são os sáris e todas as demais vestimentas femininas, bem como as masculinas com seus turbantes e coletes, as vendas de legumes (quase não se vê carne), tapetes e tecidos de beleza sem igual.

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Todos os produtos no comércio são “raros” e “especiais” na fala dos vendedores até você descobrir que eles estão por toda parte, os mesmos produtos! Depois de cair em algumas armadilhas, eu fiquei mais esperta e só me restou rir de algumas bobagens que fiz. Foi assim que aprendi que o povo aqui é manso, encantador, mas não santo, nem um pouco santo.

O artesanato impera na Índia ainda mais do que eu imaginava. E é lindíssimo! Lindo, lindo, lindo! Arte e beleza nas joias, e bijuterias, no mobiliário, nos tapetes, nos tecidos (tecidos e mais tecidos), nos trabalhados esculpidos em metais diversos, em mármore e na madeira. Usam muita pedra preciosa e semipreciosa, ossos de camelo e possuem uma pintura belíssima, que eu não conhecia, de delicadeza extrema chamada pintura de Mewar, cuja tela é feita em folha de arroz. Esse povo tem olhos e uma habilidade manual que ainda estou por entender.

Cobras, cavalos, cabras, javalis, tigres, vacas, macacos, ratos, cachorros e elefantes, muitos elefantes, fazem parte de fauna Indiana há séculos nos contos e lendas, nas pinturas, esculturas e na vida real; estão literalmente em tudo. O país também é um prato cheio para fotógrafos e por essa razão as livrarias estão abarrotadas de livros fabulosos em imagens e textos que, para quem gosta como eu, provoca o desejo de passar lá horas a fio e de comprar vários. Como infelizmente isto não é possível, seguimos adiante.

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A comida Indianas é outro capítulo à parte de riquezas em ervas, temperos e sabores, que tal qual suas cores, são marcantes e muito fortes. Como sou dada à experimentação, aqui passei por muitas alegrias, mas também por alguns sofrimentos, mesmo tendo origens e hábitos mineiros e goianos.

Quase todos os casamentos ainda são à moda antiga, ou seja, arranjado pelos pais. Noivos e noivas muitas vezes sequer se viram pessoalmente antes do matrimônio, e exatamente por isto a indústria cinematográfica de Bolywood, que vive de vender aos Indianos o amor que eles não podem viver na vida real, floresce mais e mais a cada dia. Mulheres casadas sinalizam essa condição cobrindo seus rostos e pintando a testa na raiz de seus cabelos. Já o terceiro olho está pintado em homens e mulheres que passaram pelos templos e que desejam lembrar que lá está o olho (o terceiro) que nos permite olhar para dentro de nós mesmos, uma condição essencial pra eles. Quando nós turistas chegamos a hotéis e outros lugares, nos dão as boas vindas assim, pintando uma bolinha em nossa testa. Na despedida, assim como as mães antigas faziam com seus filhos, leite e açúcar na boca pra desejar boa sorte na jornada.

Sobre a Índia, seu povo único e encantador e os momentos inesquecíveis que nela vivi eu poderia escrever páginas sem fim, tamanha a riqueza das experiências que se pode ter aqui quando estamos abertos para tal. Algumas dessas experiências foram e assim permanecerão para além do que as palavras podem dizer, pois foram o que pude experimentar com todos os meus sentidos ou sentir em minha alma.

“Mother India” ou “Incredible India” são expressões que nos dão uma pista da razão pela qual ela é assim tão inacreditavelmente rica e discrepante e tão absurdamente bela, e porque é considerada por tantos o berço de tudo e a mãe de todas as nações.

Índia linda, você estará para sempre em meu coração! Até a volta…

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